Olá,
Tenho 24 anos e sempre fui gorda. Durante anos olhei-me ao
espelho e via-me bonita. Sempre fui muito amada pelos familiares e amigos.
Nunca sofri de bullying por ser obesa e nunca esse facto me impediu de criar
amizades ou ter namoricos.
Olhar-me ao espelho não era um sacrifício e mesmo quando não
conseguia a roupa que queria porque o tamanho não havia ou porque não me ficava
bem não sentia que houvesse motivos para uma desilusão ou pensar em dieta.
Para falar a verdade eu olhava-me ao espelho e não via a
realidade. Para mim eu não era gorda, sei que não tinha o corpo perfeito mas
achava que era mais magra do que realmente os olhos dos outros viam. Não sei se
isto era uma doença, mas se uma pessoa magra se olha ao espelho e se vê gorda é
doença, então eu sendo gorda e ver-me magra também o deve ser.
A primeira vez que pensei em emagrecer foi com 16 anos, não
porque tivesse visto a realidade em frente a um espelho, mas sim porque
precisava de um par de calças e nada me servia até que numa loja encontrei o
tal par de calças que precisava (tamanho 46). O quê??? 46? Sim foi este número
enorme que me fez cair na realidade e olhar-me ao espelho com olhos de ver. Fiquei
sem reacção. A minha mãe pegou naquelas calças e comprou para mim sem saber que
aquele par iria mudar a minha vida. Andei com elas apenas um dia e no dia
seguinte procurei ajuda.
Fiz análises ao sangue e tinha o colesterol a 300, a minha
médica de família quase me deu sentença de morte prematura pela minha falta de
noção com o que eu estava a fazer comigo. Eu própria não sabia o que tinha
estado a fazer comigo. Tinha asma desde os meus 10anos de idade e nunca gostei
das aulas de educação física porque mal conseguia respirar, mas a verdade é que
era o meu peso que me dificultava a respiração.
Iniciei o meu primeiro plano alimentar, tinha 86kg quando
olhei para a balança da nutricionista e foi um choque que me deu força para
abdicar de muita coisa na minha alimentação. Consegui chegar aos 70kg, achava
que estava fantástica com o novo corpo e voltei a não ver a realidade ao
espelho. J
Com 18anos entro na universidade, o peso continuava nos 70kg
mas até que me sentia bem, uns dias cometia loucuras e outros dias compensava
com uma alimentação restrita e chás diuréticos.
Durante esse 1º ano de universidade não olhei para a balança
nem tive sequer noção da alimentação que poderia ter. Aumentei para os 85kg
novamente.
Mais uma vez procurei ajuda de uma nutricionista, mas agora
outra (tinha vergonha de admitir à antiga que voltei a engordar e em apenas um
ano).
Durante 6meses seguidos não toquei em pão, arroz, massa,
batatas, sumos, iogurtes de sabores, bolachas e eliminei os açúcares em tudo
(café, chá, leite). Na primeira semana perdi apenas 300g mas mesmo assim não
desisti, perdendo na semana seguinte 3kg. Incrível !!! Estava a perder peso e
volume J
Mas hoje sei que foi a pior coisa que fiz para o meu
organismo. Não estava apenas a perder peso com a restrição alimentar mas também
porque alimentava o meu organismo com produtos diuréticos. Perdi nesses 6meses
16kg . Muito peso certo? Mas para quem tem 1,63m de altura 70kg ainda é muito
peso. Quis continuar a dieta mas o meu corpo não cedia mais, já estava habituado
à alimentação e eu de tantas semanas sem perder uma única grama comecei a ceder
às tentações. Mas para descargo de consciência comecei a frequentar um ginásio.
Mas (mais um mas na minha vida) o desporto não era um gosto mas uma obrigação e
não tinha companhia o que foi fácil abdicar dele.
A perda rápida de peso e ganho de peso e volta a perder peso
sem fortalecer o corpo com actividade física fez com que com apenas 19anos
tivesse um corpo de uma mulher desfigurada (muitas estrias, celulite, barriga
enrugada, pele dos braços e pernas descaídas).
Deixei os diuréticos porque não podia usar aquilo a minha
vida toda e em apenas uma semana engordei 5kg. E não, não fiz loucuras na minha
alimentação, cumpri religiosamente com o que a minha nutricionista me disse
para comer e até pesei aquilo que comi.
Nesse dia desisti dessa dieta. Comecei eu a pesquisar coisas
na internet e a frequentar um ginásio novamente. Na verdade é que nos anos que
se seguiram até hoje luto com a balança e com a minha consciência.
Continuo nos 70kg, posso engordar 2kg mas volto a emagrecer
e ando neste efeito ioiô à 5anos.
Contudo, depois de muita pesquisa e de dietas que fazem perder 3kg numa semana
(e que depois se ganha na semana seguinte) ganhei coragem para olhar no espelho
e dizer que eu “SOU VICIADA EM COMIDA” e isso está a dar comigo em doida.
Não consigo seguir nenhuma restrição alimentar por muito
tempo e se antes o meu problema era apenas comer muito (muito arroz, massa,
pão) e os doces não me atraiam. Hoje é o contrário. Sinto-me frustrada e a
minha vingança é nos doces. Olhar-me ao espelho tornou-se cada vez mais difícil
porque vejo os estragos que faço ao meu corpo e não me permito ver menos que a
realidade. Sempre que estou à frente do espelho vejo-me obesa e nada menos do
que isso porque preciso disso para ganhar forças.
SOU VICIADA EM COMIDA.
Mas quero finalmente emagrecer e sentir-me bem com o meu
corpo e comigo mesma. Quero ter controlo na balança e finalmente olhar para um
espelho sem sentimento de culpa.
Finalmente descobri que não há dietas milagrosas nem
nutricionistas fantásticas que nos fazem emagrecer. Porque sem força de vontade
sem admitirmos que somos viciadas na comida não há ninguém que nos salve para o
resto da vida. A comida é a minha droga e se os outros viciados em outros
vícios podem abdicar de vez do seu vício, eu não posso parar de comer. Tenho de
dar sempre a primeira garfada e controlar-me para não dar em excesso, para não
dar mais do que realmente preciso para o meu corpo funcionar.
Contudo, mesmo ganhando força de vontade, todos os dias
tenho de me mentalizar do que posso ou não comer, quais as quantidades e que
não sou igual aos meus amigos e não posso comer igual. Esta é a minha doença e
a minha luta.
E por favor não menosprezem esta luta, porque nem
todas/todos temos a mesma força de vontade e há dias que pensamos que vamos
mudar o mundo e finalmente ter uma alimentação equilibrada para o resto da vida
como no dia seguinte estamos de rastos e sem forças para controlar os impulsos
de comer.
Hoje partilho um pouco de mim, para me conhecerem e me
apoiarem nesta luta. Não quero pensar que estou sozinha neste vício. Preciso de
ajuda e espero que a partilha diária do que eu faço com o que outras pessoas,
com o mesmo problema fazem, me faça finalmente ter controlo sobre mim, sobre os
meus impulsos e olhar para a balança e ver menos que os 70kg.
Obrigada!